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Sua casa pode estar de costas para a melhor luz que ela tem.

Foto do escritor: Myrella Masseli
Myrella Masseli
16 de set.
5 min de leitura

Antes de pensar em reforma, talvez seja preciso observar como você está ocupando a luz natural que já existe no seu espaço.


Eu ouço com frequência uma frase muito parecida:

“Minha casa é escura e eu fico para baixo dentro dela.”

E quase sempre vem acompanhada de outra:

“Acho que só uma reforma resolveria.”

É justamente nesse ponto que eu gosto de interromper um pouco esse raciocínio.

Porque nem sempre o problema está na quantidade de luz que entra na casa. Às vezes, o problema está em como organizamos nossa rotina em relação a essa luz.

Podemos ter uma boa janela, uma orientação solar interessante e algumas horas de iluminação natural muito agradáveis ao longo do dia e, ainda assim, passar grande parte do tempo de costas para tudo isso.


Quando a janela deixa de participar do projeto

Existe uma lógica bastante comum na organização das nossas casas.

Decidimos onde colocar o sofá pensando na televisão.

Escolhemos a posição da mesa de acordo com a tomada.

A escrivaninha vai para a parede que parece mais adequada para receber o móvel.

O armário é definido pelo espaço disponível.

E, no final dessas decisões, existe um elemento extremamente importante que muitas vezes não foi considerado: a janela.

Ou, mais precisamente, a relação entre janela, luz natural, atividade e permanência.

Isso significa que podemos passar horas trabalhando, lendo, tomando café ou simplesmente permanecendo em um cômodo enquanto a melhor iluminação daquele ambiente acontece atrás de nós.

A casa recebe a luz. Nós é que nem sempre a recebemos.


A luz natural não serve apenas para iluminar

Quando falamos de iluminação em interiores, é fácil pensar apenas em uma questão funcional:

“Está claro o suficiente para enxergar?”

Mas a relação entre seres humanos e luz é muito mais complexa.

A luz natural participa da regulação do nosso ritmo circadiano, ajudando o organismo a reconhecer a alternância entre dia e noite e influenciando processos relacionados ao estado de alerta, ao sono e à organização temporal do corpo.

Além disso, existe uma dimensão perceptiva.

Ambientes iluminados naturalmente mudam ao longo das horas.


A luz se desloca.

As sombras mudam.

Os materiais ganham novas tonalidades.

As texturas aparecem de outras maneiras.


Existe uma espécie de movimento silencioso acontecendo dentro daquele ambiente.

E isso faz parte da experiência de habitar.

Por isso, quando observo um espaço pela perspectiva do Design de Interiores aliado à Neuroarquitetura, não penso apenas na disposição estética dos móveis.


Eu observo também:

  • onde aquela pessoa permanece por mais tempo;

  • o que ela faz em cada horário;

  • para onde o corpo e o olhar estão orientados;

  • como a luz atravessa o ambiente durante o dia;

  • quais lugares recebem iluminação direta, indireta ou difusa;

  • e se o mobiliário está favorecendo ou bloqueando essa relação.


Às vezes, uma mudança de 90 graus transforma a experiência do ambiente

Imagine um home office.

Existe uma janela lateral com boa entrada de luz natural, mas a mesa foi colocada encostada em uma parede, porque ali havia uma tomada e porque, naquele momento, parecia ser a disposição mais óbvia.

A pessoa trabalha durante horas olhando para a parede.

A janela permanece atrás dela.

Provavelmente será necessário acender a iluminação artificial mesmo durante parte do dia.

Agora imagine essa mesma mesa girada 90 graus:


Nenhuma parede foi quebrada.

Nenhum móvel novo foi comprado.

Nenhuma marcenaria foi feita.

Porém a relação daquela pessoa com o ambiente mudou.

Ela passou a perceber a luz.

A janela entrou no campo visual.

O espaço ganhou profundidade.

A iluminação artificial talvez possa permanecer desligada durante mais tempo.

É uma pequena alteração espacial com potencial para produzir uma experiência completamente diferente.


Isso revela uma questão que considero importante no design:

Nem todo problema de uma casa precisa ser resolvido acrescentando alguma coisa.

Às vezes, o projeto começa justamente quando paramos de perguntar:

“O que falta comprar?” 

E começamos a perguntar:

“O que este espaço já está me oferecendo e eu ainda não estou aproveitando?”


Faça o teste da luz na sua casa

Antes de comprar luminárias, trocar móveis ou começar uma reforma, existe um exercício simples que pode revelar muito sobre o seu ambiente.


Escolha um cômodo em que você passa bastante tempo.

Fotografe exatamente o mesmo enquadramento em três horários:


9h

Observe onde a luz da manhã aparece.

Quais superfícies recebem mais luminosidade?

Existe algum ponto particularmente agradável?


13h

Observe novamente.

A luz ficou mais intensa?

Mudou de direção?

Alguma área que estava escura pela manhã agora se tornou interessante?


17h

Repita o processo.

Como é a luz do final da tarde naquele ambiente?


Depois, compare as três fotografias.


Você começará a perceber algo que muitas vezes passa despercebido na rotina: sua casa possui uma geografia própria da luz.


Existem lugares mais generosos em determinados horários.

Existem paredes que refletem melhor a luminosidade.

Existem cantos que poderiam abrigar atividades diferentes.

Talvez a poltrona de leitura esteja no lugar menos interessante da sala.

Talvez sua mesa de trabalho esteja exatamente de costas para a melhor janela.

Talvez aquele canto que hoje abriga apenas um móvel decorativo pudesse ser o lugar onde você tomaria café todas as manhãs.


Projetar também significa observar antes de interferir

Existe uma tendência natural de associar Design de Interiores a transformação física:

Novos móveis.

Novos revestimentos.

Nova iluminação.

Marcenaria.

Objetos.

Evidentemente, tudo isso pode fazer parte de um bom projeto, mas existe uma etapa anterior que considero fundamental: a leitura do ambiente.


Antes de modificar um espaço, precisamos compreender o que já acontece nele:

Como o sol percorre aquela casa?

Onde existe silêncio?

Onde existe ruído?

Onde as pessoas naturalmente se sentam?

Que lugar é evitado?

Que ambiente parece cansativo?

Que canto da casa inexplicavelmente nos faz querer ficar?


Quando começamos a observar essas respostas, percebemos que um projeto não deveria nascer apenas da planta baixa.

Ele precisa nascer também da relação entre o espaço e quem vive nele.


Talvez sua casa não precise de uma reforma, talvez precise ser reorganizada.

Existem situações em que uma reforma é necessária, claro.

Problemas de iluminação natural podem estar relacionados à arquitetura do imóvel, à dimensão das aberturas, à orientação solar, a barreiras externas ou à própria configuração da planta, mas antes de concluir que é preciso transformar fisicamente a casa, vale investigar outra possibilidade:

Será que estamos simplesmente utilizando mal os melhores lugares que ela já possui?

Porque, muitas vezes, a coisa mais valiosa daquele ambiente:

não está na marcenaria,

não está no revestimento,

não está no móvel de design,

não está na luminária.

Está entrando gratuitamente pela janela todos os dias.

A luz natural.

E talvez você esteja de costas para ela.


Um exercício para hoje

Antes de mudar qualquer coisa na sua casa, faça apenas uma pergunta:

Onde minha casa é mais generosa comigo ao longo do dia?

Observe a luz.

Observe onde você permanece.

Observe para onde seu corpo está orientado.

Às vezes, o primeiro passo para transformar um ambiente não é reformá-lo.

É simplesmente percebê-lo melhor.


Quer entender onde sua casa pode estar te cansando e quais pequenas mudanças podem melhorar sua relação com o ambiente?


Entre em contato comigo:

Myrella Masseli

Designer de Interiores | Design de Produto | Neuroarquitetura



Fontes e referências

1. Brown, T. M. et al. (2022) — Recommendations for daytime, evening, and nighttime indoor light exposure to best support physiology, sleep, and wakefulness in healthy adults. PLOS Biology.

2. Ardabili, N. G.; Wang, J.; Wang, N. (2023) — A systematic literature review: building window’s influence on indoor circadian health. Renewable and Sustainable Energy Reviews.

3. Münch, M. et al. (2020) — The Role of Daylight for Humans: Gaps in Current Knowledge. Clocks & Sleep.

4. Boubekri, M. et al. (2014) — Impact of Windows and Daylight Exposure on Overall Health and Sleep Quality of Office Workers. Journal of Clinical Sleep Medicine.

5. National Institute of General Medical Sciences — NIH — Circadian Rhythms.

 
 
 

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