Editorial

Quem não precisa de uma consultoria de interiores?

Casa, pertencimento, identidade e a lógica de viver bem.

Sala aconchegante banhada pelo sol: sofá claro com almofadas verde, bege e terracota, manta de tricô, mesa de centro redonda de madeira com vaso e livros, estante com plantas e, no canto inferior direito, a marca Myrella Masseli

Talvez pareça estranho começar um texto sobre consultoria de interiores dizendo que algumas pessoas não precisam contratar uma. Mas eu acredito justamente nisso.

Se você entra na sua casa e sente que ela funciona para você, se os objetos fazem sentido, a circulação é confortável, as escolhas representam quem você é e você sente prazer em estar ali, talvez não exista nada que precise ser corrigido. E está tudo bem.

O objetivo de uma consultoria não deveria ser convencer alguém de que sua casa está errada. Nem criar necessidades que não existem. Para mim, o trabalho começa quando surge uma distância entre a casa que a pessoa tem e a forma como gostaria de viver dentro dela. E essa distância nem sempre é percebida de imediato.

Uma casa pode ser bonita e, ainda assim, não funcionar bem

Estamos muito acostumados a avaliar interiores visualmente. A combinação das cores funciona? O sofá conversa com o tapete? Os objetos estão bem compostos? A fotografia ficou bonita?

Tudo isso importa. Mas morar envolve muito mais do que olhar. Um ambiente também é percebido através da iluminação, dos sons, das temperaturas, das texturas, dos cheiros, dos percursos e da facilidade - ou dificuldade - com que realizamos nossas atividades cotidianas.

É por isso que uma casa pode ser extremamente bonita em uma fotografia e, mesmo assim, ser cansativa para quem vive nela.

Na neuroarquitetura e na psicologia ambiental, o espaço construído deixa de ser entendido apenas como cenário e passa a ser observado também pela relação que estabelece com percepção, comportamento, emoção e cognição. A produção científica nessa área ainda está em desenvolvimento e exige cuidado com generalizações, mas revisões recentes mostram o crescimento das pesquisas que investigam como características dos ambientes arquitetônicos se relacionam com atenção, memória, orientação espacial e respostas emocionais.

“O ambiente age sobre nós antes mesmo de começarmos a pensar conscientemente sobre ele.”

Nem sempre percebemos a causa. Percebemos o resultado: uma iluminação que incomoda; um móvel que interrompe constantemente a circulação; uma sala em que ninguém permanece; um quarto que não transmite descanso; uma cozinha em que as atividades parecem mais trabalhosas do que deveriam. Ou simplesmente aquela sensação: “Minha casa está arrumada, mas alguma coisa não funciona.”

A lógica da casa importa mais do que a quantidade de coisas

Uma consultoria de interiores não precisa necessariamente resultar em muitos objetos novos. Às vezes, a intervenção mais importante é justamente o contrário: reposicionar, retirar, reorganizar, mudar uma fonte de luz, criar uma circulação mais clara, dar outro significado a algo que a pessoa já possui, valorizar uma memória, resolver uma proporção ou entender por que determinado ambiente provoca desconforto.

Quando digo que uma consultoria modifica a lógica da casa, estou falando da relação entre o espaço e a pessoa que o utiliza. A pergunta deixa de ser apenas “O que está faltando aqui?” e passa a ser: “O que essa pessoa precisa conseguir fazer, sentir e viver neste ambiente?”

Reconhecer-se na própria casa

Há um campo consolidado da psicologia ambiental dedicado ao estudo da relação emocional entre pessoas e lugares. Conceitos como place attachment - apego ao lugar - e place identity - identidade de lugar - ajudam a compreender por que determinados ambientes passam a fazer parte da maneira como construímos nossa própria identidade.

Pesquisas mostram que nossa relação com os lugares envolve componentes afetivos, cognitivos e comportamentais e pode estar associada a sentimentos como pertencimento, segurança, continuidade e identificação. A casa ocupa uma posição particularmente importante nessa relação.

Um estudo publicado em 2024 no Journal of Environmental Psychology, por exemplo, investigou fatores relacionados ao vínculo emocional com a residência e encontrou entre os benefícios frequentemente associados ao lar aspectos como restauração, privacidade, segurança e emoções positivas.

Isso ajuda a compreender por que decorar uma casa não deveria significar simplesmente preenchê-la com objetos esteticamente adequados. Uma casa também comunica quem vive ali, o que essa pessoa valoriza, quais histórias deseja preservar e de que forma deseja viver.

Morar de aluguel não impede alguém de construir pertencimento

Existe uma ideia comum de que apenas um imóvel próprio merece investimento emocional. Eu discordo. É claro que um imóvel alugado impõe limites físicos e financeiros diferentes. Porém, o vínculo com o lugar não depende exclusivamente da propriedade jurídica daquele espaço.

A literatura sobre apego ao lugar mostra que as pessoas desenvolvem vínculos com ambientes a partir de uma combinação de fatores, incluindo tempo de permanência, experiências, relações sociais, significados e sensação de pertencimento.

Ter uma casa com a sua cara não é necessariamente reformá-la. É conseguir se reconhecer dentro dela.

Então, quem talvez não precise de uma consultoria?

Provavelmente alguém que entra em casa e já sente que aquele lugar corresponde à sua vida; gosta de pesquisar, experimentar, medir, mudar, errar e refazer; tem tempo e prazer em conduzir sozinho esse processo; e percebe que seus ambientes já atendem adequadamente às suas necessidades práticas e emocionais.

Nesse caso, contratar uma consultoria apenas porque “todo mundo deveria contratar um designer” não faria sentido. E essa honestidade é importante para mim.

E quem pode se beneficiar dela?

Talvez alguém que more de aluguel e queira transformar aquele espaço em um lar sem realizar grandes intervenções. Alguém que já tenha comprado objetos ou móveis várias vezes e continue sentindo que alguma coisa não se encaixa. Alguém cuja casa esteja visualmente bonita, mas seja cansativa de viver. Ou alguém que simplesmente olhe para os próprios ambientes e perceba: “Isso ainda não parece comigo.”

Nesse momento, o papel do profissional não é necessariamente trazer mais coisas para dentro da casa. É ajudar a interpretar o que já existe, compreender quem vive ali e organizar espaço, percepção e experiência de forma mais coerente.

Porque projetar interiores, para mim, não deveria começar pela pergunta “O que podemos colocar aqui?”. Talvez devesse começar por outra:

“Como você quer se sentir quando estiver aqui?”

É a partir dessa pergunta que estética, funcionalidade, identidade e comportamento começam a conversar. E é justamente nesse encontro que o espaço deixa de ser apenas uma composição visual e começa, de fato, a se tornar lugar.

Referências e leituras

Editorial - Myrella Masseli
Design para viver bem

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