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Por que você não consegue relaxar em casa, mesmo quando está tudo em ordem?

Foto do escritor: Myrella Masseli
Myrella Masseli
22 de set.
5 min de leitura

Tem uma queixa que eu escuto com uma frequência que já não me surpreende mais:

“Eu chego em casa e não consigo relaxar.”

E o que torna essa frase especialmente interessante é o que costuma vir logo depois:

“Mas está tudo arrumado.”

A louça está lavada. A cama está feita. Os objetos estão no lugar. Não existe exatamente uma bagunça para resolver. Ainda assim, a pessoa entra em casa, senta no sofá e percebe que o corpo chegou, mas não desligou.

E talvez esteja justamente aí uma das diferenças entre uma casa simplesmente organizada e uma casa que realmente favorece o descanso.


Uma casa pode estar arrumada e ainda ser cansativa

Quando pensamos em um ambiente que nos incomoda, normalmente procuramos aquilo que está visivelmente errado: excesso de objetos, falta de espaço, móveis mal posicionados, cores de que não gostamos.

Mas uma parte importante da nossa experiência dentro de casa acontece em uma camada muito menos evidente.

É o ruído constante que você deixou de perceber.

É a luz branca e intensa permanecendo acesa às dez da noite.

É a televisão competindo com os sons da cozinha.

É o reflexo vindo de uma superfície.

É ter todos os objetos permanentemente dentro do campo de visão.

É precisar desviar de um móvel todas as vezes que atravessa a sala.

É entrar em casa e continuar encontrando exatamente o mesmo tipo de estímulo que encontrou durante todo o dia.

Nenhuma dessas situações precisa ser dramática para produzir desconforto.

Na verdade, frequentemente não é um grande problema que nos cansa. É a repetição de pequenos estímulos.


Experimente escutar sua casa

Existe um exercício muito simples que costumo propor.

Sente-se na sua sala, desligue televisão, música e celular e grave dez segundos do que você considera “silêncio”.

Depois coloque um fone e escute.

Talvez apareça o som da geladeira. O ar-condicionado. O trânsito. Um elevador. O apartamento vizinho. Algum equipamento elétrico. A reverberação da própria sala.

São sons que podem estar ali há anos e que você praticamente deixou de perceber conscientemente.

Mas deixar de prestar atenção não significa necessariamente que o ambiente deixou de produzir estímulos.

Em casas contemporâneas, isso pode ser ainda mais evidente. Ambientes integrados, grandes superfícies de vidro, porcelanato, pouca presença de tecidos e espaços amplos criam interiores visualmente interessantes, mas também podem favorecer a reverberação sonora. Às vezes, elementos relativamente simples — tapetes, cortinas, estofados, mantas ou estantes com livros e objetos — já modificam perceptivelmente essa experiência acústica. É justamente essa relação entre materiais rígidos, reverberação e superfícies capazes de absorver parte do som que aparece no material que desenvolvi sobre o tema.

E não estou dizendo que sua casa é acusticamente inadequada ou que você precisa instalar tratamento acústico profissional.

Estou propondo uma pergunta diferente:

o que a sua casa faz continuamente enquanto você acredita que ela não está fazendo nada?


E não é apenas o som

O mesmo raciocínio pode ser aplicado à iluminação.

Uma casa precisa da mesma quantidade e do mesmo tipo de luz às oito da manhã, às quatro da tarde e às dez da noite?

Provavelmente não.

No entanto, muitas residências são iluminadas praticamente da mesma maneira em todos esses horários: uma iluminação geral, intensa, vinda do teto e suficiente para deixar o ambiente inteiro igualmente claro.

Funcional? Sim.

Mas será que essa iluminação também comunica ao ambiente que aquele é um momento de desacelerar?

À noite, luminárias indiretas, pontos de luz mais baixos, iluminação localizada e diferentes possibilidades de acionamento permitem que a casa acompanhe melhor as atividades que acontecem nela.

Projetar iluminação não deveria significar apenas perguntar “quanto precisamos enxergar?”

Também deveria envolver a pergunta:

“Como queremos nos sentir aqui?”


Existe também o ruído visual

Há casas impecavelmente organizadas em que praticamente tudo permanece visível.

Prateleiras cheias.

Bancadas ocupadas.

Nichos decorativos.

Objetos sobre mesas.

Quadros.

Livros.

Fotografias.

Utensílios.

Informações entrando constantemente pelo campo visual.

Isso não significa que uma casa precise ser minimalista ou vazia para ser tranquila. Muito menos que objetos pessoais devam desaparecer — são justamente eles que dão identidade a um espaço.

A questão é outra.

Existe diferença entre uma casa que conta a história de quem mora nela e uma casa em que todas as histórias estão tentando ser contadas ao mesmo tempo.

Às vezes, o problema não é ter muitos objetos. É não existir hierarquia visual.

O olhar não encontra onde repousar.


O layout também pode cansar

Há ainda um tipo de desgaste quase imperceptível provocado pela maneira como usamos o espaço.

Uma circulação interrompida.

Uma mesa grande demais para determinada passagem.

Um sofá que exige um percurso desnecessário.

Uma tomada distante.

Uma iluminação cujo interruptor nunca está onde intuitivamente procuramos.

Um objeto utilizado diariamente guardado em um lugar pouco acessível.

Separadamente parecem detalhes.

Mas uma casa é utilizada centenas de vezes por dia.

Por isso, pequenas fricções repetidas podem transformar tarefas simples em pequenos esforços permanentes.

É justamente por isso que, quando analiso um ambiente, não observo apenas como ele parece. Observo como ele funciona durante um dia comum.

Onde você deixa a bolsa quando chega?

Onde coloca a chave?

O que faz primeiro?

Onde costuma sentar?

Qual luz acende à noite?

Existe algum lugar em que naturalmente diminui o ritmo?

Ou sua casa exige de você exatamente o mesmo nível de atenção desde a porta de entrada até o momento de dormir?


A casa também precisa permitir transições

Talvez esse seja um dos pontos que mais me interessam.

Passamos o dia atravessando ambientes de alta estimulação: trânsito, celular, trabalho, notificações, conversas, compromissos, decisões.

Então chegamos em casa esperando que nosso estado interno se transforme imediatamente apenas porque atravessamos uma porta.

Mas o ambiente pode ajudar nessa transição.

Uma iluminação diferente.

Uma poltrona voltada para uma janela.

Um ponto de apoio na entrada.

Uma textura agradável.

Uma temperatura confortável.

Uma sala acusticamente mais equilibrada.

Uma composição visual menos competitiva.

Um lugar específico para simplesmente sentar.

Não é necessário transformar a casa em um spa.

É preciso compreender que tipo de estímulo continua sendo oferecido quando você já não precisa mais dele.


Paz também pode ser projetada

Durante muito tempo, o design de interiores foi associado principalmente à escolha de cores, mobiliário, revestimentos e objetos.

Tudo isso importa.

Mas existe uma pergunta anterior:

como essa pessoa precisa viver e se sentir neste espaço?

É por isso que, em uma consultoria, antes de pensar na cor da parede, eu quero entender o ambiente.

Quero perceber o que ele amplifica.

O que repete.

O que interrompe.

O que exige.

O que permanece constantemente exposto.

E o que poderia ser diferente.

Porque aquela sensação que tantas pessoas descrevem — de finalmente chegar em casa, fechar a porta e sentir que podem baixar a guarda — não depende apenas de organização.

Ela também pode ser projetada.

A casa não precisa apenas estar bonita quando você olha para ela.

Ela precisa funcionar quando você vive dentro dela.


E talvez a pergunta mais importante não seja:

“O que falta na minha decoração?”

Talvez seja:

“Onde a minha casa está me cansando sem que eu perceba?”


Se você sente que sua casa está organizada, mas ainda assim não consegue realmente relaxar nela, essa é justamente uma das questões que observo em uma consultoria de interiores com olhar para neuroarquitetura, comportamento e bem-estar.

Quer saber onde sua casa te cansa?

Solicite seu diagnóstico inicial e comece a olhar para o seu espaço por uma perspectiva diferente.


Como relaxar quando chegar em casa?
Como relaxar quando chegar em casa?

Referências e leituras

  • World Health Organization. Environmental Noise Guidelines for the European Region. WHO, 2018.

  • International Commission on Illumination – CIE. Position Statement on Non-Visual Effects of Light: Recommending Proper Light at the Proper Time. 2019.

  • SAXBE, D. E.; REPETTI, R. No Place Like Home: Home Tours Correlate With Daily Patterns of Mood and Cortisol. Personality and Social Psychology Bulletin, 2010.

  • ROSENHOLTZ, R.; LI, Y.; NAKANO, L. Measuring Visual Clutter. Journal of Vision, 2007.

  • U.S. General Services Administration. Buildings and Health – Acoustic Comfort.

 
 
 

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