top of page

O Brasil virou um país de inquilinos e o design ainda finge que todo mundo é dono.

  • Foto do escritor: Myrella Masseli
    Myrella Masseli
  • 4 de ago.
  • 7 min de leitura

Durante muito tempo, morar de aluguel foi tratado como uma espécie de sala de espera. Um lugar provisório, onde a vida acontece pela metade enquanto se aguarda o momento de comprar o imóvel próprio.

Por trás dessa ideia, existe uma frase repetida por muitas pessoas:

“É alugado, então não vale a pena mudar nada.”

O problema é que esse “provisório” pode durar dois, cinco, dez anos ou mais.

Enquanto isso, a pessoa convive diariamente com uma casa que não representa sua identidade, não atende adequadamente à sua rotina e, muitas vezes, não oferece o acolhimento necessário para descansar, trabalhar e viver bem.

Os dados mostram que essa discussão não pode mais ser ignorada.

Uma apresentação sobre as tendências do mercado imobiliário, divulgada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias — Abrainc — em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, destacou que 80% da população entre 25 e 39 anos considera o aluguel uma boa opção de moradia, demonstrando uma resistência menor à locação quando comparada às gerações anteriores.

O movimento também aparece nas estatísticas do IBGE. Entre 2016 e 2024, o número de domicílios alugados no Brasil passou de 12,3 milhões para 17,8 milhões, um crescimento de 45,4%. Dados atualizados para 2025 mostram que o país chegou a aproximadamente 18,9 milhões de domicílios alugados, representando um aumento de 54,1% em relação a 2016.

O Brasil está se tornando, cada vez mais, um país de inquilinos. E isso exige uma mudança na maneira como pensamos o design de interiores.


Morar de aluguel não significa morar sem identidade


O contrato de locação determina quem é o proprietário do imóvel, mas não define quem vive naquele espaço.

Na prática, é o morador que acorda naquele quarto, prepara as refeições naquela cozinha, trabalha naquela sala, recebe amigos, enfrenta dias difíceis e constrói memórias ali.

É por isso que pertencimento não depende exclusivamente da posse.

Sentir-se em casa está relacionado à maneira como o ambiente acolhe a rotina, organiza as necessidades, representa a identidade e oferece uma sensação de segurança e familiaridade. Uma casa pode estar juridicamente no nome de outra pessoa e, ainda assim, tornar-se um lar verdadeiro para quem vive nela.

O problema começa quando o medo de perder dinheiro impede qualquer cuidado com o espaço.

A pessoa evita comprar uma luminária adequada, continua usando móveis que prejudicam a circulação, convive com falta de armazenamento e mantém o ambiente sem personalidade, porque acredita que qualquer investimento beneficiará apenas o proprietário.

Porém nem toda intervenção feita em uma casa alugada permanece no imóvel.

Móveis soltos, luminárias, tapetes, cortinas, objetos afetivos, obras de arte, plantas, peças modulares e soluções de organização podem acompanhar o morador em uma futura mudança. Nesse caso, o investimento não está sendo feito na propriedade de outra pessoa. Ele está sendo feito na qualidade da própria vida.


O design ainda trabalha como se todos fossem proprietários


Grande parte do imaginário relacionado ao design de interiores ainda está vinculada a reformas completas, demolições, troca de revestimentos, marcenaria planejada e alterações permanentes.

Essas soluções possuem importância e podem ser necessárias em muitos projetos. No entanto, elas não representam todas as possibilidades do design.

Quando o mercado de locação cresce, projetar sem obra deixa de ser uma alternativa improvisada e passa a ser uma competência central da profissão.

O desafio profissional não é apenas escolher objetos decorativos. É compreender como melhorar a funcionalidade, a circulação, a iluminação, o armazenamento e a percepção de amplitude sem realizar intervenções incompatíveis com o contrato de locação.

Isso exige leitura espacial, planejamento e criatividade.

Um projeto para imóvel alugado precisa considerar que as soluções devem ser, sempre que possível:

  • reversíveis;

  • transportáveis;

  • adaptáveis a outro imóvel;

  • financeiramente proporcionais ao tempo de permanência;

  • compatíveis com as regras do contrato;

  • organizadas por prioridades.

Portanto, não se trata de fazer uma “decoração provisória”. Trata-se de desenvolver um design flexível, consciente e alinhado à realidade de quem mora de aluguel.


Neuroarquitetura aplicada à casa alugada


A neuroarquitetura amplia essa discussão, porque direciona o olhar para a experiência humana dentro do espaço.

O corpo não pergunta quem é o proprietário da parede antes de reagir ao ambiente.

Ele percebe a intensidade da luz, os ruídos, a temperatura, a circulação apertada, a desordem visual, a ausência de privacidade e a falta de um local adequado para descansar ou trabalhar.

Da mesma forma, também percebe quando o ambiente oferece referências de segurança, organização, familiaridade e controle.

Em um imóvel alugado, a neuroarquitetura pode ser aplicada por meio daquilo que está ao alcance do morador. O objetivo não é esconder os limites do imóvel, mas compreender como determinadas escolhas podem favorecer uma relação mais saudável com o espaço.

Às vezes, a transformação começa apenas com uma nova disposição dos móveis.

Em outros casos, pode envolver a criação de zonas mais claras para trabalhar, descansar e conviver. Também pode significar reduzir estímulos visuais, melhorar a iluminação ou incluir elementos capazes de expressar a história e a identidade de quem mora ali.

Mesmo sem modificar a estrutura, é possível modificar profundamente a experiência.


O que pode ser transformado sem uma grande reforma?


Uma casa alugada pode mudar muito sem demolição, quebra-quebra ou marcenaria fixa. O primeiro passo é deixar de olhar apenas para aquilo que não pode ser feito e começar a identificar aquilo que pode ser melhorado.


1. Disposição e circulação

Mudar a posição dos móveis pode melhorar o fluxo, liberar passagens e fazer um ambiente parecer mais amplo.

Nem sempre a organização encontrada no momento da mudança é a melhor para a rotina do novo morador. Um sofá, uma mesa ou uma estante mal posicionados podem criar obstáculos e reduzir a funcionalidade do espaço.

O layout precisa responder às atividades reais da casa, não apenas acompanhar a posição das paredes.


2. Iluminação em camadas

Depender exclusivamente do ponto de luz central costuma produzir ambientes pouco acolhedores e inadequados para diferentes atividades.

Abajures, luminárias de piso, luminárias de mesa e sistemas que não exigem alterações permanentes permitem criar cenas de iluminação mais confortáveis para leitura, descanso, trabalho ou convivência.

A luz também pode valorizar pontos específicos, melhorar a percepção de profundidade e mudar completamente a atmosfera de um ambiente.


3. Organização e controle visual

A falta de armazenamento é frequente em imóveis alugados, especialmente nos apartamentos compactos.

Carrinhos, estantes soltas, módulos empilháveis, caixas, cestos, baús e móveis multifuncionais ajudam a organizar os objetos sem depender de armários planejados.

Mais do que esconder tudo, o objetivo é estabelecer uma hierarquia visual: deixar acessível o que faz parte da rotina e reduzir aquilo que produz excesso de informação.


4. Cores, texturas e elementos têxteis

Tapetes, cortinas, mantas, almofadas e roupas de cama são recursos capazes de alterar a percepção de temperatura, conforto e identidade.

Uma paleta coerente também ajuda a integrar móveis de épocas e estilos diferentes, algo comum em casas alugadas, onde parte do mobiliário pode ter sido reaproveitada de outros lugares.

Quando houver interesse em soluções adesivas ou pinturas, é necessário verificar o contrato, testar os materiais e considerar a possibilidade de restaurar o imóvel antes da devolução.


5. Elementos afetivos

Uma casa não se torna pessoal apenas pela escolha de um estilo decorativo.

Fotografias, livros, lembranças, obras de arte, peças artesanais e objetos associados à história do morador ajudam a construir identidade. Quadros podem ser apoiados sobre móveis, prateleiras ou aparadores, reduzindo a necessidade de perfurar paredes.

O importante não é preencher todos os espaços, mas selecionar elementos que tenham significado.


6. Natureza e experiência sensorial

Plantas, fibras naturais, madeira, cerâmica e tecidos com diferentes texturas podem tornar o ambiente mais vivo e acolhedor.

Também é importante considerar os demais sentidos: o ruído, os aromas, a ventilação e a sensação tátil dos materiais interferem na maneira como a casa é percebida.

A transformação não precisa ser ostensiva. Muitas vezes, são escolhas discretas e coerentes que fazem o ambiente deixar de parecer genérico.


“Mas vale a pena investir em algo que não é meu?”


Essa é a pergunta central.

A resposta depende do que entendemos por investimento.

Comprar uma bancada sob medida que não poderá ser retirada exige uma análise diferente de comprar uma boa luminária, um tapete ou uma estante modular que acompanharão o morador em outras casas.

O design para imóveis alugados precisa diferenciar o que pertence ao imóvel daquilo que pertence à vida da pessoa.

Também deve considerar o tempo estimado de permanência, o orçamento disponível e as prioridades da rotina. Nem tudo precisa ser feito de uma vez. Uma consultoria pode organizar as mudanças por etapas, começando pelo que oferece maior impacto funcional e emocional com menor investimento.

Em muitos casos, uma orientação profissional evita compras equivocadas, móveis incompatíveis com o espaço e gastos dispersos em objetos que não resolvem os problemas reais.

O objetivo não é estimular o consumo. É utilizar melhor o que já existe, identificar o que realmente falta e fazer escolhas que continuem sendo úteis depois de uma eventual mudança.


Design não é luxo — e não deveria depender de escritura


Tratar o design como algo reservado a proprietários também reforça a ideia de que ele seria apenas uma etapa estética posterior à compra de um imóvel.

Mas o design começa antes da escolha de cores e objetos.

Ele começa na escuta.

Quem mora ali? Como essa pessoa vive? Do que precisa para descansar? Onde trabalha? O que precisa guardar? Quais estímulos incomodam? O que faz aquele espaço parecer verdadeiramente seu?

Essas perguntas são importantes em qualquer moradia, independentemente de quem aparece como proprietário no contrato.

Uma casa alugada não precisa parecer definitiva para merecer cuidado. Ela precisa ser real no presente.

Porque adiar o bem-estar até o dia da compra do imóvel próprio significa, muitas vezes, passar anos vivendo em um espaço que não acolhe, não representa e não funciona.


Você não precisa ser dono da parede para se sentir em casa.

Pertencimento pode nascer da luz adequada, de uma circulação mais livre, de uma rotina organizada e da presença de objetos que contam sua história.

A casa que cuida de você pode ser justamente aquela que você aluga agora.


E você: investiria em transformar um imóvel que não é seu? Por quê?


 
 
 

Comentários


bottom of page